Descafeinado

Ween - The Mollusk

Minhas folgas semanais são domingo e segunda, onde a primeira vista pode parecer meio bosta folgar num dia de semana, ainda mais segunda, que é o mais afastado de uma hora de felicidade que se possa estar no tempo-espaço de uma semana; mas, por incrível que pareça, folgar num dia útil tem suas vantagens. Além de poder resolver problemas sem precisar faltar o trabalho, é possível curtir locais que eu me nego a ir nos finais de semana, sendo o mais eminente deles a praia.

Bolei um cigarrinho de artista, passei protetor porcamente, enchi 1,5L de água, por que garrafinha de 500 ml é uma afronta à hidratação alheia; joguei tudo numa mochila de rolê que eu tenho que está em frangalhos e fui para a praia do Pântano do Sul.

O The Mollusk do Ween já estava engatilhado no carro e decidi ir escutando ele. É um album que conheci uns dois anos atrás numa daquelas raras experiências que a gente renova a certeza de que ainda não escutou de tudo. Na época eu senti uma certa nostalgia intangível que fui compreender alguns dias depois lendo sobre o album, onde descobri que o criador do Bob Esponja tem o album como parte de inspiração para o desenho. Escutando ele é fácil perceber a energia Bob Esponjiana através de piratas, aventuras submarinas, psicodelia e um sentimentalismo canalizado através de um senso de humor inusitado. O album casou perfeitamente com a antecipação de uma dia chapado praia sua tropicalidade melancólica sentimental. Eu já estava escutando ele aqui e ali novamente nas últimas semanas, pois este é um daqueles albums que você se pega viciado novamente meses depois sem saber de onde veio, e ele acabou me fisgando de novo.

Chegando no Pântano, minha praia favorita em Floripa e uma das mais afastadas ao sul da cidade, a qual ainda emana uma energia de vilarejo difícil de encontrar por aqui hoje em dia, decidi ser intrépido e deixar o celular no carro, coisa rara para mim que temo ficar entediado sem música. Não houve maiores problemas, pois a energia do Ween já estava incorporada naquele dia. Caminhei nas dunas com uma brisa marítima chicoteando de areia a face e dificultando o fogo. Caminhando naquela amplitude branca passei por uma ave morta parcialmente soterrada pela duna, corri das regiões de areia batida que queima os pés, furei o dedo com um carrapicho, perdi a trilha de volta e parei numa vegetação sem saída que me obrigou a dar a volta novamente. Experiências interessantes, independente do tom negativo que elas possam passar.

Saindo da duna fui caminhar ao longo da praia. Estava com o refrão de Mutilated Lips na cabeça, de longe a música mais incrível do álbum e uma verdadeira perfeição sonora de excentricidade pelágica sedante. Os corpos de areia corriam pela praia com o vento e açoitavam minhas pernas enquanto eu pensava se não iria tomar um torrão. Talvez a mochila nas costas ajudasse um pouco com as regiões que a gente não alcança sozinhos, mas o receio de ter passado protetor precariamente é recorrente.

Fazendo o caminho de volta, decidi laricar num barzinho pequeno que eu nunca havia percebido que existia. Pedi isca de peixe e suco de maracujá. Este foi meu primeiro dia sem beber na missão "Jejum Alcoólico de Outubro". Sobrou bastante comida, a qual levei para casa, comi mais duas vezes e ainda sobrou um resto para meu colega de casa jantar naquele dia.

The Mollusk é isto. Um dia na praia sozinho, narcotizado sob o sol, sabendo que desgraça pouca é bobagem e o bucho cheio de peixe.