Descafeinado

Vis Medicatrix Naturae

Queria ver a cara do meu eu-passado de exatos sete dias atrás quando eu cantasse a pedra da montanha russa de emoções que seria a próxima semana.

Fui até o apartamento dela para conversar. Resolvemos o estranhamento na insistência e ela parecia ter mudado de ideia. A gente saiu para um restaurante japonês. Fomentamos a escoliose numa típica mesa oriental de chão, onde os rodízios de pernas cruzadas e estendidas só pioravam o desconforto. Conheci molho de ostra e atestamos que sair sem beber é relativamente barato. Voltamos para o apartamento dela e ficamos trocando post-its após um sexo conciliatório que brevemente seria lembrado como o último. Uma noite curta e relativamente bem dormida se desfez numa ansiogênica reavaliação pessoal do desacordo do dia anterior, isso tudo enquanto eu comia os ovos mexidos que ela tinha feito.

Palavra emanada não tem estorno, onde qualquer tentativa de redenção pode ter a teatralidade e/ou eloquência que for que não ressarcirá a perda.

Voltando para o quarto, insisti num posicionamento e ela admitiu que não quer estar numa relação no momento. Eu disse que não tinha mais muito o que fazer ali, coloquei minhas roupas e fui para a sala botar o tênis enquanto ela vestia a roupa dela, pois o prédio precisa de um morador para entrar e sair. Ela tinha que descer junto. A colega de apartamento dela perguntou da cozinha por que estava indo tão cedo e nem lembro o que falei para ela. Foi uma marcha fúnebre para descer dois lances de escadas até a garagem. Me guiando pelas mãos com afeto, ela se virou e entre os carros me disse que não preciso ficar triste, que ela me ama de verdade e que eu não esqueça disso. Senti meus olhos pingarem enquanto perguntava por que ela estava me torturando daquela forma. É para eu esperar? Tem algo aqui para mim ainda? Devo entender como um término ou uma demoção para relacionamento aberto? Como que alguém diz que me ama e que não quer estar comigo ao mesmo tempo? Essas dúvidas viriam a me atormentar por mais 6 dias. Não esperei a resposta e me retirei. Chorei dez minutos no carro e segui para casa sabendo que não teria condições de trabalhar naquele dia.

Acabei realmente faltando o trabalho no sábado, mas folguei normal domingo e segunda, ainda emendando a terça, dia que eu havia pego licença para um plano natimorto de acampar com ela. Foram quatro dias de fuga e isolamento. Pessoal aqui de casa soube tratar a situação perfeitamente o consegui ficar sozinho como queria.

No domingo, numa breve conversa com meu amigo após o almoço, vendo polo, esporte piegas e de rico entojado, decidi deletar o Instagram. O famoso "Cold Turkey". Queria fazer isso faz tempo mas algo sempre me impedia. Eu não sou confiável perto do Instagram, semelhante à um cachaceiro que precisa abolir até o bombom de licor da própria vida para não recair. Acabou o polo e começou o estrategicamente interessante e tediosamente demorado futebol americano. Meu amigo curte uns esportes esdrúxulos. Me sentei para conversar enquanto ele bebia um cubinha. Não fumei e nem bebi desde o óbito, pois não é uma boa ideia narcotizar a melancolia. Quanto à abstinência de álcool, decidi manter um pacto que eu e ela havíamos feito na semana anterior e vou seguir sozinho nessa empreitada antietílica até o primeiro de novembro. Gosto de me privar das coisas só para ver que sou capaz de viver sem ela. Queria poder falar isso desse breve relacionamento também.

Na segunda rolou um churrasco no vizinho, onde queimei um mas não bebi. Meu método para controlar a fissura do cacoete de álcool é água com gás e limão, pois a manha é ter algo para bebericar e ocupar as mãos, pois a gaseificação simula uma bebida elaborada. Água sem gás, suco e refrigerante não dá. Água sem gás vai rápido demais e não tem reposição de eletrólitos que dê jeito, enquanto que o suco começa a amargar a alma depois de um tempo e refrigerante te cega e te amputa o pé na diabetes. A terça passei no quarto comigo mesmo e com o espírito em alta com o prospecto de passar a trabalhar num horário mais saudável ( 9am-6pm ) nesse verão, o qual provavelmente será de uma Florianópolis socada de gente. Conhecer pessoas novas e viver um pouco depois desses quase dois anos de enclausuração da era Coronavirus me parece interessante.

Na quarta feira consegui levar o trabalho na manha. Dia passou rápido e foi produtivo. Na quinta feira de manhã abri meu celular e tinha uma mensagem dela perguntando se eu estava bem. Disse que estava levando como dava e ela afirmou que estava na mesma, porém, segundo ela, com dificuldades. Fiquei me perguntando o que eu deveria fazer com esta informação. Para que me chamar tão cedo e prolongar o martírio que já estava suportavelmente controlado? De noite eu mandei mensagem pedindo para ela me dar um direcionamento para eu não ficar nessa incerteza. Depois da minha insistência, ela respondeu dizendo que realmente não é a hora para ela namorar, pois ela precisa resolver a própria vida e não tinha como se entregar para o sentimento agora, porém tinha medo de perder o contato comigo. Afirmei que acreditava nela, mas precisava que ela não me contatasse mais para poder ficar em paz. A angústia surpreendentemente saiu de mim como que arrebatada por aquela tão desejada clareza. Posso seguir minha vida em paz, ainda machucado, porém com um caminho menos nebuloso para convalescer mais rápido.

Tudo terminou numa estranha sensação de que, num futuro onde ambos já estarão dessensibilizados com o ocorrido, nos encontraremos por aí e ainda haverá uma cumplicidade saudável quanto ao que tivemos.

Tem uma frase do Seneca que eu sempre tenho na cabeça, e que também estava num dos post-its que dei para ela naquela noite, que fala "ninguém suportaria se a força das adversidades fosse na continuidade como é no primeiro golpe". Um adágio infalível.

Agradecimento especiais para minha maravilhosa equipe de apoio nessa última semana: Cocteau Twins, Seinfeld e The Witcher III.